Mais do dia a dia na escola e o incentivo ao empreendedorismo

Já falamos aqui sobre o método e os estudos de casos. A grande maioria dos estudos que são feitos, mostram a decisão positiva. Mesmo que para se chegar a ela tenham-se tomado decisões erradas e se ralado muito. Não se estuda, ou pouco se estuda o caso que não deu certo. Porém, aprende-se de forma bem incisiva aqui que o erro é parte do sucesso. Repetem a frase de Thomas Edison, que tentou mais de 10.000 protótipos até inventar a lâmpada “I have not failed. I’ve just found 10,000 ways that won’t work” (Eu não falhei. Apenas achei 10 mil  formas que não dão certo).

 

Numa cidade de startups, de novos negócios, o fracasso parece ser também um mantra. E isso incentiva a busca. “Change the world from here (mude o mundo a partir daqui), diz o outdoor da Universidade de San Francisco.

 

Na faculdade, somos o tempo todo apresentados a iniciativas locais (maioria) ou não, com seus erros e acertos, que atingiram certo reconhecimento. Mesmo que mínimo. Muitas delas eu não conhecia. Não só de negócios lucrativos, mas de ações sociais, lucrativas ou não. A técnica de negócios pode e deve se juntar à boa vontade e às boas ideias para resolver os problemas do mundo. Eles dizem, “erre, mas erre gloriosamente”. Tente, dê o máximo de si, que o erro será bem visto. Esse ambiente estimula. Conquista. Impulsiona.

 

 

Um caso concreto

 

 

Uma disciplina: Landscape of Social Entrepreneurship. (Contexto  do Empreendedorismo Social). Muitos estímulos, vídeos, ideias. Iniciativas, contatos. Um professor que é palestrante, e também professor do MIT, fundador de várias empresas (http://www.youtube.com/watch?v=KSoDKnSNDwU). De cara, ele doa para o SOBiz Club (Clube de Negócios Sociais, ver post anterior) ingressos com hotel para um festival de música em Austin Texas, que ele não poderá ir, para serem leiloados no Ebay (outra iniciativa local).

 

Um desafio. A Intuit (empresa local de software) está na Índia, e criou um sistema interessante para aumentar a renda de agricultores familiares, com informações de mercado via SMS para melhorar o rendimento da venda de suas colheitas. Eles são semianalfabetos. Porém a iniciativa, que já elevou a renda deles em mias de 30% será desativado na próxima safra por que a empresa não consegue monetizar o processo (é complexo). Já fez sete tentativas diferentes. Que ainda não deram certo.

 

A empresa, em parceria com o professor, abre os dados para nós. É feita videoconferência com a Índia. Temos o desafio de propor uma solução. Não vale nota, mas quase todos se engajam. Ele diz: têm a chance de resolver um caso para uma empresa de 4,3 bilhões de dólares. Um caso social. Quem vai?

 

O desafio está lançado. Estamos trabalhando nele. Videoconferências com o pessoal na Índia. Insights, ideias. Discussão como mundo real. A quem conteste sermos vistos como mão de obra gratuita para a empresa. Mas se aprende com a vida real. E muito.

 

O Método

Copiado, imitado, admirado, contestado, às vezes. Esse é o método americano de ensino superior. Muito visto em filmes. Participativo, exigente. Eletivo. Menos rígido nas escolhas. Profundo após estas terem sido feitas. Explico.

 

Organização. As três primeiras semanas de aula consistem no que eles chamam de “Toolbox”. Caixa de Ferramentas, em tradução literal. Eles explicam o que vão fazer, como vão avaliar, o que será exigido, o uso da tecnologia. A história da escola, do sistema, as políticas de imigração (estimuladas), a parte psicológica e prática de se trabalhar em grupo. Como estudar casos, e casos recentes de decisões empresarias complexas. Que lições tirar delas. Para treinar habilidades gerenciais, trazem um alto executivo de empresa local, caso de sucesso: Starbucks. E este traz um caso de um problema real da empresa, para o qual a comunidade internacional se mobiliza pelo seu caráter humanitário: uma ameaça ao café de Ruanda, hoje o principal produto de exportação daquele país africano, e esperança para um povo devastado pelo não tão distante genocídio. Não há respostas certas. Há pesquisa, insights, soluções a se tentar. Somos instigados a mergulhar no problema e apresentar caminhos. Para ouvir as apresentações dos grupos, vieram executivos da empresa que estão vivenciando e buscando soluções. Muito bom ver o engajamento e as conexões de todos em seus países, as experiências pregressas e as luzes que se lançam em busca das saídas.

 

As aulas não são todas no mesmo horário. Há uma grade, mas há espaços que a primeira vista parecem em branco. Mas são preenchidos pelas inúmeras atividades que são passadas. Muita pesquisa, reunião, ação em grupo. Tive dois domingos inteiros de aula (notaram que diminuiu a frequência de posts?). Os professores não trazem tudo mastigadinho para ser entregue. Há estímulo a essa busca. A informação é assimétrica, assim como no mundo real.

 

Há um portal na internet onde são trocados emails e entregue tarefas, trabalhos. Há um software que identifica na hora o percentual de plágio em um texto (chama-se Turnitin). Ao submeter o texto, ensaio,paper, você clica em uma caixa em que afirma ser seu trabalho original. Se não for, na hora ele identifica. Claro e bom que se tenha citações que são consideradas. Mas a originalidade é avaliada. De forma “científica”. Depois, vem a nota do professor.

 

Interessante que esse portal é complementado na informalidade pelas páginas do Facebook da escola, do curso, e o dos alunos. Que avisam e lembram das tarefas, para quem não checa o tempo todo o site. Os professores podem, e passam, tarefas pelo site. Mesmo depois da aula ter acabado. E com prazo. Lembro da postagem de um colega no Facebook (“Sinto acabar com o sábado de vocês, mas estão se lembrando que temos que entregar isso a e aquilo,  e ter lido isso e aquilo para  a aula de segunda”)? Essa eu não me lembrava. Mas deu tempo.

 

Na aula, fala-se muito. O professor tem o domínio, mas pede insights, complementos. Quem já viu a “Sociedade dos Poetas Mortos”? É mais ou menos aquele estilo de aula participativa. No início, falam mais os de língua nativa (menos desinibidos) e os que são falantes por natureza. Com pouco tempo, todos falarão mais. O grupo é excepcionalmente bom. Me impressionou.

 

Trabalhar em grupo multinacional tem sido outro grande aprendizado. Descobri por que tem tantos indianos aqui (No Vale do Silício, aqui perto então). Eles são muito bons, competentes. Impressionam. A troca de experiências culturais e organizacionais tem se mostrado rica. Única, irritante às vezes. Mas compensadora.

 

Outra coisa boa é a quantidade de links e contatos que nos passam. Há coisa interessante de sobra para ler e conhecer no tempo de intervalo. Mas isso é assunto para outro post.