Primeiro dia de aula II. As impressões deles

Fomos todos (até a Vó e Tia e madrinha dela) pegar Ana Luiza. Ela saiu com cara meio de choro. E disse simplesmente que não gostou. E que se perdeu lá dentro, e que não entendeu nada. E que não comeu. Que tava com saudades do Colégio Canarinho (o anterior dela). Mas que a “tia” era boazinha. Pelo menos isso. Pedimos para ela explicar melhor essa de ter se perdido. Ela disse que brincou no playground (já pronunciou perfeitamente em inglês, com o r enrolado e as vogais bem ditas – gostei) depois do lanche e não soube voltar. Mas que o diretor achou uma pessoa que falava português e que a encaminhou. Ficamos de averiguar. E fomos pegar o Léo.

Ele saiu misterioso. Dizendo simplesmente que foi “bom”. Confessou que não almoçou por não ter dado tempo e nem saber que tínhamos pago. Na realidade, não tivemos como avisá-lo e nem deixamos dinheiro com ele. Pois o deixamos e saímos para deixar a Aninha. Mas que houve somente explicação de como seria o ano e as tarefas por parte dos professores. Que gostou de todos eles mas que não entendeu muito bem a de matemática – que falava rápido demais (depois descobrimos que ela é indiana e fala rápido mesmo, com sotaque diferente dos americanos).

No final desse dia, tinha um evento para os pais da escola do Léo. Fomos. No grande ginásio, palestra da diretora. Focou muito na disciplina, inclusive dando conselhos aos pais. Nas dificuldades da idade (a escola é para 6º, 7º e 8º ano). E na excelência acadêmica, nas mudanças daquele ano etc. Fiquei do lado do presidente (depois soube) do … San Bruno. Me falou dos eventos e já me pediu para, como voluntário, traduzir para o português uns formulários deles. Então, começou uma espécie de treinamento sobre com é o dia de uma aluno da Parkside. Fomos assistir, na ordem, aulas de dez minutos com cada professor.

Cada um tem uma sala. E os alunes devem se movimentar entre elas, levando seu material. As salas têm muitos instrumentos de ensino e todas as aulas são com powerpoints e vídeos. Os temas são também disponibilizados na interne, em um software especial. Se o aluno falta, não perde. Há muita exigência de tarefas de casa e ênfase nos prazos. Os trabalhos mostrados, feitos por alunos de outros anos eram muito bons. Se apresenta um código de conduta a todos antes. Onde se ressalta o respeito e a disciplina. Que conta ponto. Provas são 20%. Participação, entrega dos trabalhos, criatividade e outras coisas respondem pelos 80%. Nos pareceu muita coisa, mas a educação é ampla. Grupos de estudo são incentivados e atividades extra classe também. Ele pode ter, como eletivas, aulas de música – optou pela guitarra – mas como nos matriculamos faltando uma semana para inciarem-se as aulas, está sujeito à existência de vagas. Acham que vai ter, mas só se sabe na segunda semana. Terá aulas de ciências, matemática, inglês, história, tecnologia e educação física.

Cada professor explicou o programa. Os livros, as tarefas. Todos me pareceram muito bons. A todos falamos que o Leo era brasileiro, mas eles estão acostumados à diversidade. A rotina nos pareceu corrida. Entre uma aula e outra, 6 minutos para sair, pegar coisa nos armários (com cadeado de segredo) e ir para a outra. Como nos filmes. Isso também um treinamento de disciplina.

O que nos deixou meio estranhos é o fato de que cada professor apresentou uma lista de desejos (wishlist) de coisas que devem ser doadas à escola – já que não há oficialmente exigência de material. Coisas tipo lenços de papel, pinceis de quadro branco, cola, tesoura e, pasmem, créditos Itunes. Para comprar software.. Tudo discretamente. Mas não esperávamos. Voluntário, mas pedindo mesmo assim.

De qualquer forma saímos impressionados com a estrutura, e com as exigências. A sala de tecnologia era uma maravilha. A de música também. A quadra de educação física, impecável. No geral, tudo meio massificado também. O tempo dirá. Mas não sei como será uma possível atenção mais individualizada – como estávamos acostumados no espetacular Colégio Canarinho e Sapiens, em Fortaleza.

Chegamos em casa, repassamos tudo para ele. Ele, às vezes se fazendo de indiferente, dizia: já sei como é. É assim nos filmes. Vou dar conta…

O esperado, ansiado e temido primeiro dia de aula das crianças

IMG_8846 IMG_8874 IMG_8839 IMG_8843 IMG_8844 IMG_8872 Duas escolas. Relativamente perto do apartamento (tem que ser), porém um pouco distantes uma da outra. Pela idade e pela localização, Ana Luiza foi para uma elementary school e Leo para uma Middle School. Na matricula, como já falamos em outro post, foi tudo bem em ambas. Vamos de uma por uma…

Na segunda, antes do início oficial das aulas, que seria numa quarta, houve a entrega dos horários. Momento em que fomos nos, pais e o aluno à escola. Para receber orientações. Foi bom que o Leo pode ver a Parkside Middle – coisa que ainda não tinha feito.

Uma fila, rápida, para entregar um documento de vacina que estava faltando (eles nos avisaram por email após a matrícula, e vacinamos numa farmácia Walgreens). E então, fomos a um ginásio da escola para pegar outras coisas. Na entrada, um garoto bem desinibido, de cerca de 12 ou 13 anos, já aborda o Leo e faz um discurso bem estruturado, convidando a fazer parte do grêmio da escola (Student Council). Falava bem ele. Leo, em princípio não quis, mas gostou da ideia. Deixamos, claro, a critério dele. Em seguida, no ginásio, conhecemos os professores dele, que se apresentaram muito simpaticamente enquanto distribuíram material. Pública e gratuita, mas algum material pessoal era pago. Os cadeados dos armários (quem têm que ter segredos), os cadernos de cada matéria, os uniformes de educação física. Opcionalmente, o livro do ano – com fotos oficiais da turma. Quisemos esse, claro, para registrar todo o período. Recebemos o que eles chamam de planner – uma agenda. A escola arrecada também vendendo casacos oficiais com sua marca. Não obrigatórios, mas desejados pelos orgulhosos alunos. Estava lá também o presidente da PTA (Parent-Teachers Association), que participa e opina ativamente na escola,e que também promove eventos. Estava ali recrutando novos associados. Nos engajamos. Demos uma volta pela escola com o Leo e fomos embora.

Chegou o primeiro dia. Deixamos o Leo. Ele, querendo ser o tempo todo independente, dizendo que já conhecia as escolas americanas, de tanto ver Drake & Josh, Manual de Sobrevivência Escolar do Ned, Diário de um Banana e outros seriados. Quis ficar logo só. Deixamos. Não houve tempo de eu entrar lá. Fomos deixar, então, Aninha (6 anos).

Chegando na escola dela, ela bem insegura, vimos logo a lista de alunos. Era cedo ainda. Já dava para ver naquela lista uma amostra de toda a diversidade da região. Nomes ingleses, sim. Mas também espanhóis, árabes, russos e de nacionalidades não de cara identificadas. Um deles, Lucas Costa…só podia ser brasileiro. Descobrimos que era. Da turma dela.

Entramos. Ela foi (conosco) para um fila. Onde, virados para o diretor, no pátio, todos repetem um juramento à bandeira americana. Me lembrou de meus tempos de colégio. Bonito de se ver. Em seguida, entrou na sala. Uma sal de aula grande, muito aparelhada, inclusive com computadores. O lugar dela já marcado. Um crachá na mesa com o nome dela. Muitos pais apreensivos (primeiro dia de aula). Isso, muito parecido. A professora nos pede, assim como a todos os pais, para deixar a sala. Ela, ainda apreensiva, fica.

Fomos então para uma reunião na “cafeteria”, da escola. Com o diretor. Ele apresenta aos pais as mudanças no plano de estudos, aprovadas pelo governo da Califórnia, e enfatiza a necessidade da presença. Coloca que o repasse de recursos do governo à escola depende da presença, da assiduidade. E que uma falta, alem de prejudicar o aluno, prejudica e escola e a todos os colegas. Uma abordagem prática e direta. Foi bastante aplaudido quando disse que iria ficar full time naquela escola Descobrimos depois que ele antes dividia o papel de diretor com outra escola das imediações, substituindo outro, mas que esse ano ira ficar só lá. E que tem a fam de excelente diretor. Apresentou também a presidente do PTA daquela escola. Conversamos com ela. Muitas opções a considerar. Inclusive dividir carona.

Pagamos o lanche dela. Paga-se por semana. E fomos para a escola do Léo, fazer o mesmo. A grande expectativa ficou para o momento de ir buscá-los. Mas isso fica para o próximo post…

As escolas

No dia seguinte, fomos ao distrito educacional de San Bruno, onde fomos muito bem atendidos, e direcionados para a primeira escola, a da Aninha. Nossa ideia era pedir para ser matriculada em outra, melhor ranqueada, mas um pouco mais distante. Porém chegamos na escola indicada. Muito bonita, bem localizada, bem cuidada. Uma vista boa para o mar e campos amplos de educação física e parquinhos.

Chegando na recepção, uma recepção atenciosa e um atendimento espetacular, pelo próprio diretor (The Principal). Olham os documentos, checam a vacinação e o comprovante de endereço. Tudo perfeito. Em princípio, até achei que teria, como me disseram, que vacinar de novo contra tuberculose, mas não precisou. O diretor fez questão de dizer que fazi tudo para facilitar e não pedir nada que não fosse essencial. Não tive coragem de mudar para outra escola. Ele pediu para andarmos por lá, à vontade. Conversamos com a provável futura professora dela. A sala de aula, linda e estruturada, com computadores e tudo. Na hora, também identificaram outros alunos que falam português, caso ela precise. E disseram que ela vai ter reforço especializado de aulas de inglês para a idade dela. Tudo grátis, pelo sistema educacional da Califórnia.

Na escola do Léo, a mesma coisa. É outra, pela idade dele. Ótima recepção. Ótima impressão. Ótimo atendimento e profissionalismo. Também não precisou de vacina ou documento extra. O que levamos, já sabíamos pela pesquisa, deu certo. Ele também terá aulas de reforço de inglês.

Em breve, encontro com os pais e mestres. E o primeiro dia de aula.

Mais um passo, graças a Deus, cumprido.

O que as crianças vão comer lá? Cardápio de uma escola.

CardapioNossos filhos estão mal acostumados. Fazem pouco para se servirem e se virarem – fruto de nossa educação brasileira, superprotetora e remanescente de uma sociedade dividida e elitista.E também acostumados com a comida com sabor acentuado, além de pouco diversa, fruto do que falei no primeiro item. Crianças só comem o que gostam ou o que acham que gostam.

Essa vai ser mais uma grande vantagem da experiência que está por vir: o rompimento desses paradigmas. Nos EUA eles almoçam na escola, lá. E têm que ser autônomos, por necessidade e obrigação. Esse salto de autonomia é benefício esperado também por nós, pais. E alertado para eles desde já. Para que sofram menos e se adaptem melhor. Faz parte  do crescimento.

Mas, o receio é também de maias ainda se acostumarem com as quase inevitáveis porcarias que se come nos Estados Unidos.  E lá, o paraíso do fast food, deve-se redobrar esse cuidado. Léo já menciona,  usando esses mesmos termo, que “nos EUA as porcarias são ainda melhores que aqui”. Apesar do paradoxo da frase, espero que ele não constate isso.

Por curiosidade, pesquisamos o cardápio, aleatoriamente, de uma das escolas. Vejam o que vimos, no arquivo anexo, parece bom:

 

“$3.99 for all you can eat?

Put some food in my plate, and some Coke in my cup

Give me some chicken, franks, and fries

And you can pass me a lettuce. I’m a pass it by

So keep shoveling, (Ha!) onto my plate

Give me some sweets and lots of cake

Give me some hot Macaroni and Cheese!”

All you can eat – The Fat Boys

O que pensam os filhos sobre tudo isso?

Leo (12 anos)

“Papai, vai ser uma experiência boa, vou aprender inglês bem. Tenho medo que a escola tenha gangues e valentões, como eu vejo nas séries. E também das comidas que posso ser obrigado a comer. Mas sei que comem muita porcaria nos Estados Unidos, e como eu adoro essas porcarias (como batatas fritas, nachos etc), vou me dar bem. Bom que os videogames são mais baratos e tem mais modelos lá. Quero, com o que vendemos de nossas coisas, comprar o novo Wii U assim que chegar. Quero, também, passar frio.”

Ana Luíza (6 anos)

“Tô com saudade já da minha escola. Das minhas amigas. Quero ganhar uma boneca nova, já que vendemos quase todas as que eu tinha. Quero aprender inglês bem já que já estou lendo em português.”